quarta-feira, maio 18, 2005
COMO SE ESCREVE FRIEZA EM RUSSO?

O Sporting acaba de perder a final da Taça UEFA em pleno Alvalade XXI, e Portugal não consegue conquistar três competições europeias seguidas. Quem assistiu aos primeiros 50 minutos de jogo não esperaria tal desfecho, mas a verdade é que a equipa de Peseiro deixou-se embalar pelo futebol russo, frio e calculista.
Na primeira parte o futebol jogado não foi de grande qualidade, mas sim praticamente de sentido único, com o Sporting a jogar em casa e assumir as despesas do jogo, perante um CSKA encolhido e incapaz de utilizar a sua principal arma - o contra ataque. Assim, aos 28' Rogério assina o mais belo momento do Sporting e talvez do jogo, com um remate de fora da área, em arco e sem hipóteses de defesa para Akinfeev. Alvalade fervia de emoções e os milhares de sportinguistas presentes acreditavam que a taça UEFA iria decerto ficar em Portugal.
A partir do golo, o CSKA libertou um pouco as amarras e o seu contra-ataque começou a aparecer, com os brasileiros Daniel Carvalho e Wagner Love em destaque. Nos últimos momentos do primeiro tempo, Love tem uma oportunidade flagrante para empatar o encontro, o que seria injusto face ao desenrolar dos acontecimentos.
A segunda parte chegou e com ela começou o descalabro leonino. A partir dos 50', o CSKA passou a acertar muito mais o seu futebol e o Sporting não aproveitava os lances de perigo que ia criando. Aos 56' num livre descaído para o direito do ataque moscovita, a bola é cruzada para a área onde A. Berezutski cabeceia para a baliza leonina e empatando a partida, num lance onde me parece que Ricardo reage tardiamente.
O Sporting tremeu com o golo sofrido mas continuou a mandar no jogo, enquanto os russos mantinham-se na expectativa. Aos 65' uma reposição de bola longa por parte de Ricardo foi cortada a meio campo, rapidamente endossada para Daniel Carvalho, que assiste Zhirkov para assinar o segundo golo do CSKA, perante a passividade da defesa leonina.
Estavam os russos em vantagem e Alvalade via a Taça UEFA a tirar bilhete para Moscovo. Os minutos seguintes foram controlados pelos russos, que em rápidas contra-ofensivas, iam causando mais calafrios ao último reduto leonino. Só aos 70' o Sporting volta a controlar o jogo e a acreditar que jogando em casa tinha obrigação de ganhar a partida. Peseiro mexe na equipa tirando o lutador Sá Pinto para a entrada de Niculae.Aos 73' chega o momento do jogo. Moutinho remata com perigo, o guarda redes russo defende com dificuldade, Tello recupera a bola e remata para a baliza - sim, porque aquilo não foi um passe, que era o mais indicado na situação - e Rogério, a um metro da linha de golo, consegue acertar no poste, vendo a bola a rolar pela linha de golo e parar nas mãos de Akinfeev.
Os jogadores leoninos pareciam incrédulos e enquanto isso, já a bola era rapidamente colocada no flanco direito do ataque moscovita, onde o jogador russo consegue ganhar o lance sobre um demasiadamente macio Enakarhire e cruzar para área onde Wagner Love se antecipa a Ricardo - mais uma vez parece fazer-se muito mal ao lance - fazendo o terceiro golo e praticamente sentenciando a derrota leonina. Se há crueldade no futebol, este lance servirá de exemplo. A partir desse momento, pouco mais há a contar, a não ser a total descrença sportinguista - público e jogadores incluídos - e a força anímica que desapareceu do relvado de Alvalade. Peseiro ainda introduziu Douala e Hugo Viana, mas já era demasiado tarde.O sonho esfumou-se e do Céu ao Inferno, foi apenas uma distância de 45 minutos. A uma primeira parte muito boa, o Sporting juntou uma segunda parte para esquecer - ou para lembrar -, mostrando neste jogo as duas faces do leão época 2004-05.
O CSKA tem de ser considerado um justo vencedor do troféu, apesar do seu futebol calculista e cínico. Geriu o encontro partindo de uma coesão defensiva e de um contra-ataque simplesmente letal. Como no futebol são os golos que contam e decidem partidas, o CSKA foi mais eficaz e feliz. Mas não faz a felicidade parte do jogo?
Uma última palavra ainda para os adeptos do Sporting, pelo fair-play demonstrado no final, aplaudindo os vencidos e os vencedores. Porque o futebol é, acima de tudo, uma festa.
BOLA NA ÁREA